Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus. Lv 20.7

Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus. Lv 20.7
Muito se tem falado em santidade. Mas, afinal, o que é ser santo? Pois eu também não sei e não me atrevo a responder. Quero, sim, propor uma ideia do assunto; apenas uma intromissão na questão.
No versículo proposto, há dois imperativos: santificai-vos e sede santos. O primeiro nos parece tratar da santidade como um processo. E o segundo como uma condição momentânea, que contempla um período de tempo, e que, por sua vez, é resultado do processo.
“Santificai-vos e sede santos”, disse o Senhor ao povo de Israel no deserto, dando como razão para a santidade a sua própria existência: “Pois, eu Sou o Senhor vosso Deus”. Ainda que sob condições diversas, Paulo, o doutor dos gentios, nos ensina que a santidade é pré-requisito para aquele que se diz servo do Senhor:

Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso (I Co 1. 1, 2)

Paulo diz que sua carta destina-se aos que estão santificados em Cristo Jesus, e que foram chamados para serem santos. Isso parece estar em linha com o que Deus disse através de Moisés lá em Levítico 20:7. A diferença é que lá, a santificação dependia de um ato pessoal (santificai-vos), enquanto que na abordagem de Paulo isso se dá em razão da morte e ressurreição de Cristo Jesus nosso Senhor (santificados em Cristo Jesus). Mas há clara convergência em “sede santos” e “chamados para serem santos”, expressões que parecem sugerir a responsabilidade do que é paciente dessa santificação.
Mas, retomando a questão da santidade no AT, há algo que considero relevante. Diz-nos o dicionário Strong que, em hebraico, a transliteração para o vocábulo santo é qadosh, que aparece em algumas literaturas como kadosh, que era, ou é, o nome de uma banda que tinha, ou tem, como vocalista o talentoso Silas Furtado (será que estou certo?). Já o ato de santificar-se é qadash ou kadash, que obviamente descende do mesmo radical.
E o que tem de relevante nisso tudo? Calma que tem coisa aí...
Antes de continuar, quero registrar que não vejo com bons olhos a abertura ampla e irrestrita que se deu a muitas novidades (ou mundanidades?) em nossas igrejas. Se, por um lado, os antigos confundiram doutrina com costume e assim, jogaram muita gente no mundo, por outro, a liberdade atual oferecida para a vida social do crente parece estar destituída da essência cristã. Minha observação é que o sagrado e o profano se confundem muitas vezes na prática cristã da minha geração. Às vezes parece-me difícil separar um do outro. Veja a observação que o próprio Deus faz nos tempos de Ezequiel a respeito do tema:

Os seus sacerdotes violentam a minha lei, e profanam as minhas coisas santas; não fazem diferença entre o santo e o profano, nem ensinam a discernir entre o impuro e o puro; (Ez 22.26)

Repare que o alerta diz respeito aos sacerdotes, que não faziam a diferença entre o santo e o profano e também não ensinavam a necessidade do discernimento que se deve ter entre o puro e o impuro. Assim, vou forçar uma barra e afirmar que é muito tênue (mas muito mesmo) a linha que separa o sagrado do profano, ou seja, aquilo que é santo deixa de sê-lo muito facilmente; contudo, o que é profano não passa a ser santo na mesma velocidade. E é preciso ter bastante cuidado com isso.
Voltando à ajuda prestada pelo dicionário Strong, convém dizer que a palavra “santo” é formada por três consoantes que têm som de “Q”, “D” e "Shi”. A vocalização vem pelos pequenos sinais massoréticos que auxiliam na transliteração da palavra. Então, qadash e qadosh – santificar-se e ser santo – são representados pelas mesmas letras hebraicas. Contudo, folheando o dicionário citado, vi, bem perto dessas palavras, o vocábulo qadesh, que também é formado pelas mesmas três consoantes já citadas, e, só olhando bem de perto conseguimos notar a diferença. Porém, qadesh significa prostituto-cultual e está ligado à consagração à divindade pela prostituição. Vejamos um texto em que a palavra original é qadesh, com esse significado:

Também exterminou da terra os restantes dos prostitutos-cultuais que ficaram nos dias de Asa, seu pai. I Re 22. 47

Também em Jó, a palavra qadesh foi traduzida como prostituta:

Eles morrem na mocidade, e a sua vida perece entre as prostitutas. (Jó 36. 14)

Portanto, na língua original do AT, apenas alguns sinais vocálicos, fazem a diferenciação entre um santo e um prostituto ou uma prostituta. E, na prática, é muito fina a linha que separa um do outro.

Santo, sagrado: קדשׂ
Prostituto, prostituta: קדש